sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Aquele nosso medo de sermos julgados

O Medo do Julgamento e a Vergonha: Como Superar a Sensação de Estar Sempre Sendo Observado



A pré-adolescência e a adolescência são fases marcadas por mudanças profundas, tanto físicas quanto emocionais. É nessa idade que muitos começam a experimentar uma sensação incômoda: a vergonha e o medo de serem julgados. De repente, qualquer erro parece amplificado, qualquer olhar alheio parece carregado de críticas e cada escolha parece uma oportunidade para ser ridicularizado. Esse sentimento muitas vezes não desaparece com o tempo e pode ser carregado até a vida adulta, influenciando decisões, relações e até mesmo o sentido de identidade de uma pessoa.

Mas será que realmente estamos sendo observados e julgados o tempo todo? A resposta é não. A verdade é que cada pessoa é o centro do seu próprio mundo, e por mais que, sim, as pessoas julguem, a maioria delas está muito mais preocupada consigo mesma do que com você. Mesmo que falem de você, será por alguns segundos antes de voltarem a se ocupar com seus próprios problemas. E mais: se você fizer alguma coisa, vão falar. Se você não fizer, também vão falar. Então, por que basear suas escolhas na opinião dos outros, se no final quem terá que arcar com as consequências é você?


O Público Imaginário: O Engano Cognitivo que Faz os Jovens Se Sentirem Observados

O medo de ser julgado tem uma explicação psicológica bem fundamentada. O psicólogo do desenvolvimento David Elkind descreveu um fenômeno chamado "público imaginário", que explica por que adolescentes sentem que estão constantemente sendo observados e avaliados. Esse fenômeno surge porque, nessa fase da vida, a identidade ainda está em construção, e os jovens passam a desenvolver um maior senso de autoconsciência.

Essa autoconsciência, no entanto, vem acompanhada de uma distorção cognitiva: a crença de que todas as outras pessoas também estão cientes deles o tempo todo. Na prática, isso significa que um adolescente que tropeça na frente dos colegas pode sentir que foi ridicularizado por todos, quando, na realidade, a maioria das pessoas sequer notou o incidente ou já o esqueceu minutos depois. Esse fenômeno se estende à vida adulta quando a pessoa continua carregando essa sensação de exposição constante.


O Efeito Holofote: Você Não Está Sendo Observado Tanto Quanto Pensa

Outro conceito que ajuda a entender esse medo exagerado do julgamento é o "efeito holofote", estudado por Thomas Gilovich. Esse viés cognitivo faz com que superestimemos o quanto os outros prestam atenção em nós.

Imagine que você usou uma roupa diferente e acha que todos estão notando e comentando sobre isso. A verdade? Quase ninguém percebeu. Cada pessoa está ocupada demais lidando com suas próprias preocupações para ficar analisando a sua vida. O mundo não gira ao seu redor, pois, na realidade, cada um de nós é o centro do próprio mundo. Isso significa que, enquanto você está preocupado com o que os outros pensam de você, eles estão preocupados com o que os outros pensam deles.


Vergonha e o Medo do Julgamento: Como Isso nos Paralisa?

O problema é que esse medo constante de julgamento pode nos levar a viver uma vida limitada. Brené Brown, pesquisadora da vergonha e da vulnerabilidade, explica que a vergonha não é apenas um sentimento passageiro — ela molda a forma como nos vemos e nos relacionamos com o mundo. Diferente da culpa, que surge quando fazemos algo errado, a vergonha nos faz acreditar que nós mesmos somos errados.

Isso significa que muitas pessoas deixam de se expressar, de tentar coisas novas ou de seguir caminhos que realmente fazem sentido para elas por medo do que os outros vão dizer. Mas a questão é: o julgamento sempre existirá, independente do que você faça ou deixe de fazer. Se você tomar determinada atitude, alguns vão criticar. Se fizer o oposto, também será alvo de comentários. A realidade é que não há como agradar a todos, e tentar viver dessa forma é uma receita para a infelicidade.


A Psicologia Existencial e a Importância de Ser Autêntico

Esse medo do julgamento pode ser analisado também pela perspectiva da psicologia existencial. Jean-Paul Sartre afirmava que somos livres para escolher quem queremos ser, mas essa liberdade traz angústia, pois nos obriga a assumir total responsabilidade por nossas decisões. Muitas pessoas, para evitar esse peso, preferem se conformar às expectativas dos outros, mesmo que isso as faça infelizes.

Søren Kierkegaard falava sobre o "desespero da conformidade", que ocorre quando alguém se molda tanto às expectativas externas que perde sua identidade no processo. Ele defendia que a verdadeira realização vem quando tomamos decisões alinhadas aos nossos próprios valores, e não ao que a sociedade espera.

Ou seja, viver com base no medo do julgamento nos torna prisioneiros de uma vida que não é nossa. No final, quem arca com as consequências das nossas escolhas somos nós, não aqueles que nos julgam. Portanto, a decisão mais sábia é seguir aquilo que faz sentido para você.


Como Superar o Medo do Julgamento e da Vergonha?

1. Aceite que ser julgado faz parte da vida

O julgamento alheio nunca vai desaparecer completamente. Em vez de tentar evitá-lo a qualquer custo, aceite que ele existe, mas que isso não precisa afetar suas decisões.

2. Lembre-se de que ninguém está prestando tanta atenção em você quanto você imagina

O efeito holofote nos engana ao fazer parecer que estamos sempre sendo observados. Mas, na prática, cada um está focado em si mesmo.

3. Escolha suas ações com base nos seus valores, não na opinião dos outros

O psicólogo humanista Carl Rogers falava sobre a importância da congruência, ou seja, viver de forma coerente com o que sentimos e acreditamos. Se você tenta agradar a todos, acaba se desconectando de quem realmente é.

4. Se as pessoas vão falar de qualquer jeito, então faça o que for melhor para você

O medo do julgamento só tem poder sobre nós quando damos importância a ele. No momento em que aceitamos que não importa o que façamos, sempre haverá críticas, ganhamos liberdade para agir conforme nossa própria consciência.

5. Assuma a responsabilidade por suas escolhas e consequências

Muitas vezes, tentamos evitar o julgamento terceirizando nossas decisões para agradar os outros. Mas, no final, somos nós que enfrentamos as consequências. Se temos que carregar o peso das nossas escolhas, que ao menos sejam escolhas autênticas.


Conclusão: A Verdadeira Liberdade Está em Ser Você Mesmo

Superar o medo do julgamento não significa ignorar completamente a opinião dos outros, mas sim aprender a distinguir entre aquilo que é uma crítica útil e o que é apenas um reflexo das projeções alheias. A verdade é que as pessoas falam por alguns segundos e depois seguem com suas próprias preocupações. Se você se privar de viver por medo do que vão pensar, a única pessoa que realmente sairá perdendo é você.

No final, o que realmente importa é viver uma vida que tenha sentido para você. Se você fizer algo, vão falar. Se não fizer, também. Então, que tal simplesmente ser quem você quer ser?

Referências:

BROWN, Brené. A coragem de ser imperfeito: Como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser você mesmo. Rio de Janeiro: Sextante, 2013.

BROWN, Brené. Mais forte do que nunca: Caindo, levantando e seguindo em frente. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.

ELKIND, David. Egocentrism in adolescence. Child Development, v. 38, n. 4, p. 1025-1034, 1967.

GILOVICH, Thomas; MEDVEC, Victoria H.; SAVITSKY, Kenneth. The spotlight effect in social judgment: An egocentric bias in estimates of the salience of one’s own actions and appearance. Journal of Personality and Social Psychology, v. 78, n. 2, p. 211, 2000.

KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano: A doença até a morte. Tradução de Álvaro L.M. Valls. Petrópolis: Vozes, 2010. (Original publicado em 1849).

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2019. (Original publicado em 1943).

ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2001. (Original publicado em 1961)


domingo, 9 de fevereiro de 2025

"Me Mimei" e o Narcisismo Coletivo: Um Sintoma da Sociedade Contemporânea

Há pouco tempo, viralizou na internet o meme “me mimei”, inspirado em uma postagem da influenciadora Virgínia Fonseca, que exibiu uma compra de luxo de cerca de duzentos mil reais. Embora pareça apenas mais um episódio de ostentação, esse meme se tornou um símbolo de algo maior: a exaltação do eu e a busca incessante por validação nas redes sociais. Por trás desse fenômeno está um traço cultural mais profundo, que alguns teóricos poderiam identificar como uma patologia do social - narcisismo social.


Freud, em seu ensaio On Narcissism: An Introduction (1914), destacou como o investimento libidinal em si mesmo faz parte do desenvolvimento humano. O que antes era tratado como um processo psíquico individual ganhou contornos coletivos na modernidade. Hoje, não se trata apenas de amar a própria imagem, mas de espetacularizar esse amor publicamente por meio das redes. É justamente essa espetacularização que faz o “me mimei” ultrapassar a esfera pessoal, atingindo proporções de um fenômeno cultural.


O historiador e crítico social Christopher Lasch, em A Cultura do Narcisismo (1979), chamou a atenção para a forma como a sociedade norte-americana (e, por extensão, boa parte do Ocidente) passou a valorizar a autoimagem em detrimento do bem comum. Na era digital, a opinião de Lasch encontra um terreno fértil: a ostentação de bens, como bolsas de luxo, torna-se uma narrativa de “sucesso” que reforça o individualismo. Ao mesmo tempo, esse tipo de exposição gera comparações, inveja e uma busca incessante por aprovação, contribuindo para uma cultura do ego que enfraquece projetos coletivos de transformação.


Nesse sentido, Christian Laval e Pierre Dardot, em A Nova Razão do Mundo (2016), apontam como o neoliberalismo se apropria de nossas subjetividades, transformando cada indivíduo em um “empreendedor de si mesmo”. Nessa lógica, ostentar conquistas ou mimos pessoais – como no caso do meme – funciona como um sinal de que “você chegou lá”, mesmo que isso signifique apenas reproduzir um discurso de distinção social. Longe de incentivar a cooperação ou a reflexão política, essa postura alimenta a competição e a validação externa, afastando-nos cada vez mais de ações coletivas que questionem as desigualdades estruturais.


Por fim, Byung-Chul Han, em Psicopolítica (2014), descreve como a busca por likes, seguidores e uma boa imagem pública se tornou uma forma de autoexploração. Acreditamos estar no controle de nossa própria narrativa, mas, na realidade, somos conduzidos por algoritmos e por uma economia de atenção que lucra com cada curtida. Essa “positividade do poder”, como o autor chama, faz com que o indivíduo se volte cada vez mais para si mesmo, preocupado em perpetuar uma imagem ideal. Nesse processo, a possibilidade de consciência crítica e organização coletiva vai se diluindo, pois estamos ocupados demais em “mimar a nós mesmos”.


O meme “me mimei” evidencia como o narcisismo digital se expande para além de um simples capricho individual: torna-se parte de uma engrenagem social que estimula o consumo ostensivo, reforça hierarquias e legitima o status quo. Enquanto valorizarmos apenas aquilo que nos confere visibilidade e prestígio pessoal, continuaremos distantes de uma transformação profunda da sociedade. Afinal, o que seria necessário para romper com a ordem vigente se, no fundo, estamos todos ocupados em perseguir e exibir nossos próprios “mimos”?


Referências Bibliográficas


FREUD, S.

On Narcissism: An Introduction (1914). In: ______. The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud: Vol. XIV (1914-1916). Londres: Hogarth Press, 1957.


HAN, B.-C. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.


LASCH, C.

A cultura do narcisismo: a vida americana em uma era de expectativas em declínio. Rio de Janeiro: Imago, 1983. (Título original: The Culture of Narcissism, 1979)


LAVAL, C.; DARDOT, P.

A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.




Saúde Mental e Política: A Psicopolítica do Sofrimento Contemporâneo

Introdução

A saúde mental é frequentemente abordada como um fenômeno individual, tratado no nível da psicoterapia ou da psiquiatria como uma questão privada do sujeito. No entanto, essa perspectiva ignora um aspecto fundamental: a interdependência entre bem-estar psicológico e as condições políticas e sociais. Desde Aristóteles, que definiu o ser humano como zoon politikon, já se compreendia que a política não é uma esfera separada da existência humana, mas a estrutura fundamental da vida em sociedade.

Com o avanço do neoliberalismo, essa relação entre política e saúde mental se tornou ainda mais complexa. Não se trata apenas de acesso a tratamentos psicológicos ou das consequências da desigualdade sobre o sofrimento psíquico. Como argumenta Byung-Chul Han (2014), vivemos sob um novo regime de poder, a psicopolítica, que não apenas controla corpos e ações, mas infiltra-se diretamente na subjetividade. O resultado é um sujeito que, acreditando estar no comando de sua vida, internaliza o controle e se autoexplora até a exaustão.

Este artigo explora essa relação, analisando como o contexto econômico e social influencia a saúde mental, como a ideologia neoliberal molda o sofrimento psíquico e como a política afeta as formas de lidar com a angústia contemporânea. Para isso, mobilizaremos contribuições teóricas de autores como Byung-Chul Han, Christian Laval, Richard Sennett e Mark Fisher, entre outros, que ajudam a pensar criticamente essa questão.


A Política Como Estrutura Reguladora da Vida Social

Política não se restringe às eleições, aos partidos ou aos governantes. Ela está presente nas relações de trabalho, nos modos de consumo, na organização da cidade, no acesso à saúde e à educação. É, fundamentalmente, o conjunto de normas e decisões que estruturam nossa existência. Em outras palavras, a política regula aquilo que é possível ou impossível dentro de um determinado contexto social.

No capitalismo contemporâneo, especialmente sob o avanço do neoliberalismo, o papel do Estado na regulação da vida social tem sido reduzido, deslocando para o indivíduo a responsabilidade por sua própria sobrevivência e bem-estar. Como mostram Laval e Dardot (2016), essa nova racionalidade política transforma os cidadãos em "empreendedores de si mesmos", levando à intensificação do sofrimento psíquico. Afinal, se todo sucesso ou fracasso é atribuído exclusivamente ao mérito individual, qualquer dificuldade se torna uma questão de falha pessoal, e não estrutural.

Han (2014) complementa essa análise ao afirmar que o poder neoliberal não age mais pela repressão, como nos regimes disciplinares descritos por Foucault, mas sim pela sedução e pela positividade. O controle não é mais exercido pela proibição, mas pela suposta liberdade: os sujeitos acreditam estar livres enquanto obedecem a uma lógica invisível de produtividade e autoaperfeiçoamento. Essa nova forma de controle psicológico gera um sofrimento silencioso, pois cada indivíduo se torna responsável não apenas pelo seu próprio sucesso, mas também pelo seu próprio fracasso.


Determinantes Sociais da Saúde Mental

A relação entre pobreza, desigualdade e transtornos mentais é amplamente documentada. Estudos como os de Wilkinson e Pickett (2010) demonstram que sociedades mais desiguais apresentam maiores taxas de depressão, ansiedade e até suicídio. Isso ocorre porque a insegurança econômica, a instabilidade no emprego e a precarização das condições de vida geram um estado constante de estresse e vulnerabilidade.

Richard Sennett (1998) argumenta que o modelo econômico atual, baseado em flexibilidade e alta rotatividade no mercado de trabalho, leva a uma corrosão do caráter. O trabalhador contemporâneo não apenas enfrenta desafios materiais, mas também um esvaziamento subjetivo: sem estabilidade, sem perspectiva de futuro, sem pertencimento. Essa precarização das relações laborais impacta diretamente a saúde mental, levando a um estado de exaustão permanente.

Além disso, as políticas públicas desempenham um papel crucial na regulação do acesso ao cuidado psicológico. No Brasil, a reforma psiquiátrica e a luta pela saúde mental comunitária foram marcos importantes na humanização do atendimento. No entanto, cortes de financiamento, falta de profissionais e a privatização da saúde têm dificultado esse acesso, reforçando as desigualdades e agravando o sofrimento dos mais vulneráveis.


A Ideologia do “Empreendedor de Si Mesmo” e o Sofrimento Psíquico

Uma das faces mais perversas do neoliberalismo é a internalização da culpa pelos indivíduos. Se antes as condições sociais eram vistas como um fator determinante da vida, hoje predomina a ideia de que "basta querer" para superar qualquer obstáculo. Essa narrativa meritocrática cria um paradoxo: ao mesmo tempo em que exalta a liberdade e a autonomia do indivíduo, o aprisiona em uma lógica de autossuficiência inatingível.

Byung-Chul Han (2017) descreve essa dinâmica na Sociedade do Cansaço, onde o sujeito neoliberal se torna simultaneamente explorador e explorado de si mesmo. Não há mais um patrão externo que impõe ordens; o próprio indivíduo se autoexplora, buscando incessantemente melhorar sua performance, sua produtividade, sua imagem. Esse esgotamento psíquico se manifesta no aumento de diagnósticos de burnout, depressão e transtornos de ansiedade.

Mark Fisher (2009), por sua vez, argumenta que o realismo capitalista naturalizou a ideia de que não há alternativa ao sistema vigente, o que leva a um estado de impotência e desesperança. Para Fisher, essa falta de perspectiva é um dos principais motores da crise de saúde mental contemporânea, pois impede que os indivíduos enxerguem possibilidades de mudança estrutural.


Saúde Mental Como Questão Política

A psicopolítica, como define Han (2014), é um poder invisível, que age por meio da positividade e da autoexploração. Aplicativos de autoaperfeiçoamento, cultura do coaching, terapia como ferramenta de alta performance e até práticas de mindfulness voltadas para produtividade são exemplos de como o sofrimento psíquico é instrumentalizado pelo próprio sistema.

A medicalização do sofrimento, por exemplo, é um sintoma dessa despolitização. Em vez de questionarmos por que tantas pessoas estão adoecendo mentalmente, buscamos soluções individuais, como terapia, medicação ou práticas de bem-estar. Embora esses recursos sejam importantes, eles não resolvem as causas estruturais do problema. Como diz Thomas Szasz (1961), em O Mito da Doença Mental, muitas das condições classificadas como transtornos psiquiátricos podem ser compreendidas como respostas naturais a contextos de opressão e sofrimento.

Se quisermos de fato enfrentar a crise de saúde mental contemporânea, precisamos ir além da psicologia clínica e do discurso motivacional. Precisamos de políticas públicas eficazes, de uma redistribuição mais justa dos recursos e de uma sociedade que compreenda o sofrimento psíquico como um problema coletivo. Afinal, como dizia Aristóteles, somos seres políticos – e é na política que se encontram as possibilidades de transformação. 


Referências


FISHER, Mark. Realismo capitalista: não há alternativa? São Paulo: Autonomia Literária, 2009.


HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.


HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.


LAVAL, Christian; DARDOT, Pierre. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.


SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 1998.


SZASZ, Thomas. O mito da doença mental. Harper & Row, 1961.


WILKINSON, Richard; PICKETT, Kate. Desigualdade: como a desigualdade afeta a forma como vivemos. São Paulo: Editora Record, 2019. (Título original: The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better, 2010).

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Acídia e a Falta de Sentido na Vida Moderna: Espaços para a Elaboração.

A acídia, um conceito que remonta à tradição medieval cristã, era descrita como um estado de entorpecimento da alma, uma mistura de tédio, apatia e desespero que levava os indivíduos a uma forma de paralisia existencial. Inicialmente considerada um vício espiritual que afetava monges, afastando-os de suas responsabilidades religiosas, hoje podemos reinterpretá-la como um fenômeno psicológico que ecoa fortemente no mundo contemporâneo.

Vivemos em uma era de hiperconectividade e excesso de estímulos, mas, paradoxalmente, cada vez mais pessoas relatam uma sensação de vazio e falta de sentido. O tédio existencial, antes limitado às elites intelectuais que refletiam sobre a vida, agora atinge massas que, apesar de estarem imersas em redes sociais, consumo e produtividade, sentem-se cada vez mais alienadas e desmotivadas. O que antes era um problema religioso se tornou uma crise psicológica e filosófica coletiva.

Se a acídia medieval afastava os monges de Deus, a acídia moderna parece afastar as pessoas delas mesmas. A questão central que emerge é: como lidar com esse estado de desengajamento e desesperança? Duas abordagens contemporâneas oferecem caminhos complementares para essa questão: a Logoterapia, de Viktor Frankl, e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), de Steven Hayes.


Acídia e Neurose Noogênica: O Vazio como Doença da Alma

A neurose noogênica, descrita por Viktor Frankl, surge da falta de sentido na vida. Diferente das neuroses clássicas explicadas pela psicanálise como resultado de conflitos inconscientes, essa forma de sofrimento não tem origem em traumas reprimidos, mas na incapacidade de encontrar um propósito.

Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, argumentava que mesmo sob as condições mais extremas, os indivíduos que conseguiam atribuir um sentido à sua existência tinham mais chances de sobreviver e manter sua dignidade. O sofrimento sem propósito leva ao colapso psíquico; já o sofrimento que é integrado a uma narrativa de significado pode ser tolerado e até transformado.

A acídia contemporânea se assemelha à neurose noogênica: um estado de torpor causado pela falta de propósito, onde os indivíduos, imersos em rotinas sem significado, passam a experimentar uma forma de vida anestesiada. O tédio extremo, a procrastinação crônica, a alienação das próprias emoções e a busca incessante por distrações são sintomas desse fenômeno.

Se na Idade Média a resposta para a acídia era a oração e a disciplina espiritual, hoje as soluções são mais diversas. No entanto, tanto a Logoterapia quanto a ACT apontam um caminho que não passa pela simples fuga do desconforto, mas sim pela reconstrução do sentido e do engajamento na vida.


Logoterapia: Encontrar Sentido no Sofrimento

A Logoterapia propõe que o ser humano é movido pela "vontade de sentido", e não apenas pela busca de prazer (como propôs Freud) ou de poder (como defendia Adler). Para Frankl, a crise existencial surge quando essa vontade de sentido é frustrada, levando ao que ele chamou de "vazio existencial".

Se aplicarmos essa visão ao mundo contemporâneo, percebemos que a acídia moderna não é apenas uma questão de "preguiça" ou "apatia", mas um sintoma de uma sociedade que perdeu suas referências de sentido. Em um mundo onde os valores tradicionais foram fragmentados e o consumo se tornou o novo centro de gravidade, muitas pessoas se veem sem uma narrativa maior que dê coerência às suas vidas.

Como a Logoterapia pode ajudar?

  • Frankl propõe que o sentido da vida não precisa ser um conceito absoluto, mas pode ser encontrado na ação.
  • Ele sugere três caminhos principais para encontrar sentido:
    1. Criar algo ou realizar um trabalho significativo.
    2. Experienciar algo ou se conectar com alguém profundamente.
    3. Atitude diante do sofrimento inevitável – transformar a dor em aprendizado e crescimento.

Dessa forma, a Logoterapia sugere que a superação da acídia e do vazio existencial passa pelo engajamento ativo na busca por um propósito, mesmo que esse propósito seja pequeno e momentâneo.


ACT: Aceitação e Ação na Vida Sem Sentido

Enquanto a Logoterapia enfatiza a busca por sentido, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) propõe um caminho diferente: aceitar a incerteza e agir mesmo sem ter um "grande propósito" definido.

A ACT trabalha com a ideia de que a luta contra o vazio e a tentativa constante de preencher a vida com distrações podem ser tão danosas quanto o próprio tédio existencial. Muitas vezes, a busca desenfreada por sentido pode se tornar um novo sofrimento, e o medo do vazio pode levar à procrastinação e à evitação de experiências.

Como a ACT pode ajudar?

  • Aceitação do desconforto: Em vez de tentar eliminar a sensação de vazio, a ACT ensina que é possível conviver com ela sem se deixar dominar.
  • Desfusão cognitiva: Trabalhar para não se identificar cegamente com pensamentos negativos do tipo "minha vida não tem sentido", reconhecendo que são apenas construções mentais.
  • Conexão com valores pessoais: Mesmo sem encontrar um "grande propósito", a ACT incentiva a agir conforme aquilo que realmente importa para cada um.
  • Ação comprometida: Sair da paralisia e começar a agir, mesmo sem garantia de sentido absoluto.

Se a Logoterapia ensina que o sofrimento pode ter significado, a ACT ensina que não precisamos de um significado absoluto para começar a viver.


Conclusão: Como Sair da Acídia Contemporânea?

A acídia do mundo moderno pode ser entendida como um estado psicológico de alienação e tédio profundo, onde a vida parece perder seu sabor e o futuro se torna irrelevante. Tanto a Logoterapia quanto a ACT oferecem caminhos para lidar com essa condição, mas com abordagens complementares:

  • A Logoterapia propõe que o sentido da vida pode ser encontrado mesmo em meio ao sofrimento, e que a ação deve ser guiada por um propósito maior.
  • A ACT ensina que não precisamos esperar por um sentido absoluto para agir, e que aceitar o desconforto do vazio pode ser a chave para sair do estado de inércia.

No fim, ambas as abordagens nos lembram que a pior escolha diante da acídia é a passividade. O mundo contemporâneo pode ser caótico e desprovido de sentido pré-definido, mas a resposta ao vazio não está na fuga, e sim na maneira como escolhemos nos relacionar com ele.


FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 35. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2020.

FRANKL, Viktor Emil. A presença ignorada de Deus: ensaios sobre a relação entre religião e psicoterapia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016.

FRANKL, Viktor Emil. Teoria e terapia das neuroses: introdução à logoterapia e análise existencial. São Paulo: É Realizações, 2018.

HAYES, Steven C.; STROSAHL, Kirk D.; WILSON, Kelly G. Terapia de aceitação e compromisso: processo e prática da mudança consciente. Porto Alegre: Artmed, 2012.

HAYES, Steven C.; LEVIN, Michael E.; PLAUDIT, Rebecca E.; PISTORELLO, Jacqueline. ACT: Terapia de aceitação e compromisso para psicólogos clínicos. São Paulo: Hogrefe, 2020.

CUNHA, Leandro Melo; MOREIRA, Jacqueline de Oliveira. Acídia e crise de sentido: uma tentativa de aproximação conceitual. Memorandum, v. 35, p. 1-20, 2019. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/memorandum/article/view/15192.

LAUAND, Jean. Acídia, um estado da alma na tradição medieval. Revista USP, n. 76, p. 20-31, 2006. Disponível em: https://www.usp.br/jorusp/arquivo/2006/jusp761/pag20.htm

OLIVEIRA, Bruno. A tristeza moderna e a acídia medieval: o fundamento da felicidade. Montfort, 2018. Disponível em: https://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/tristeza-moderna-e-a-acidia-medieval-parte-2-o-fundamento-da-felicidade/.

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