domingo, 9 de fevereiro de 2025

Saúde Mental e Política: A Psicopolítica do Sofrimento Contemporâneo

Introdução

A saúde mental é frequentemente abordada como um fenômeno individual, tratado no nível da psicoterapia ou da psiquiatria como uma questão privada do sujeito. No entanto, essa perspectiva ignora um aspecto fundamental: a interdependência entre bem-estar psicológico e as condições políticas e sociais. Desde Aristóteles, que definiu o ser humano como zoon politikon, já se compreendia que a política não é uma esfera separada da existência humana, mas a estrutura fundamental da vida em sociedade.

Com o avanço do neoliberalismo, essa relação entre política e saúde mental se tornou ainda mais complexa. Não se trata apenas de acesso a tratamentos psicológicos ou das consequências da desigualdade sobre o sofrimento psíquico. Como argumenta Byung-Chul Han (2014), vivemos sob um novo regime de poder, a psicopolítica, que não apenas controla corpos e ações, mas infiltra-se diretamente na subjetividade. O resultado é um sujeito que, acreditando estar no comando de sua vida, internaliza o controle e se autoexplora até a exaustão.

Este artigo explora essa relação, analisando como o contexto econômico e social influencia a saúde mental, como a ideologia neoliberal molda o sofrimento psíquico e como a política afeta as formas de lidar com a angústia contemporânea. Para isso, mobilizaremos contribuições teóricas de autores como Byung-Chul Han, Christian Laval, Richard Sennett e Mark Fisher, entre outros, que ajudam a pensar criticamente essa questão.


A Política Como Estrutura Reguladora da Vida Social

Política não se restringe às eleições, aos partidos ou aos governantes. Ela está presente nas relações de trabalho, nos modos de consumo, na organização da cidade, no acesso à saúde e à educação. É, fundamentalmente, o conjunto de normas e decisões que estruturam nossa existência. Em outras palavras, a política regula aquilo que é possível ou impossível dentro de um determinado contexto social.

No capitalismo contemporâneo, especialmente sob o avanço do neoliberalismo, o papel do Estado na regulação da vida social tem sido reduzido, deslocando para o indivíduo a responsabilidade por sua própria sobrevivência e bem-estar. Como mostram Laval e Dardot (2016), essa nova racionalidade política transforma os cidadãos em "empreendedores de si mesmos", levando à intensificação do sofrimento psíquico. Afinal, se todo sucesso ou fracasso é atribuído exclusivamente ao mérito individual, qualquer dificuldade se torna uma questão de falha pessoal, e não estrutural.

Han (2014) complementa essa análise ao afirmar que o poder neoliberal não age mais pela repressão, como nos regimes disciplinares descritos por Foucault, mas sim pela sedução e pela positividade. O controle não é mais exercido pela proibição, mas pela suposta liberdade: os sujeitos acreditam estar livres enquanto obedecem a uma lógica invisível de produtividade e autoaperfeiçoamento. Essa nova forma de controle psicológico gera um sofrimento silencioso, pois cada indivíduo se torna responsável não apenas pelo seu próprio sucesso, mas também pelo seu próprio fracasso.


Determinantes Sociais da Saúde Mental

A relação entre pobreza, desigualdade e transtornos mentais é amplamente documentada. Estudos como os de Wilkinson e Pickett (2010) demonstram que sociedades mais desiguais apresentam maiores taxas de depressão, ansiedade e até suicídio. Isso ocorre porque a insegurança econômica, a instabilidade no emprego e a precarização das condições de vida geram um estado constante de estresse e vulnerabilidade.

Richard Sennett (1998) argumenta que o modelo econômico atual, baseado em flexibilidade e alta rotatividade no mercado de trabalho, leva a uma corrosão do caráter. O trabalhador contemporâneo não apenas enfrenta desafios materiais, mas também um esvaziamento subjetivo: sem estabilidade, sem perspectiva de futuro, sem pertencimento. Essa precarização das relações laborais impacta diretamente a saúde mental, levando a um estado de exaustão permanente.

Além disso, as políticas públicas desempenham um papel crucial na regulação do acesso ao cuidado psicológico. No Brasil, a reforma psiquiátrica e a luta pela saúde mental comunitária foram marcos importantes na humanização do atendimento. No entanto, cortes de financiamento, falta de profissionais e a privatização da saúde têm dificultado esse acesso, reforçando as desigualdades e agravando o sofrimento dos mais vulneráveis.


A Ideologia do “Empreendedor de Si Mesmo” e o Sofrimento Psíquico

Uma das faces mais perversas do neoliberalismo é a internalização da culpa pelos indivíduos. Se antes as condições sociais eram vistas como um fator determinante da vida, hoje predomina a ideia de que "basta querer" para superar qualquer obstáculo. Essa narrativa meritocrática cria um paradoxo: ao mesmo tempo em que exalta a liberdade e a autonomia do indivíduo, o aprisiona em uma lógica de autossuficiência inatingível.

Byung-Chul Han (2017) descreve essa dinâmica na Sociedade do Cansaço, onde o sujeito neoliberal se torna simultaneamente explorador e explorado de si mesmo. Não há mais um patrão externo que impõe ordens; o próprio indivíduo se autoexplora, buscando incessantemente melhorar sua performance, sua produtividade, sua imagem. Esse esgotamento psíquico se manifesta no aumento de diagnósticos de burnout, depressão e transtornos de ansiedade.

Mark Fisher (2009), por sua vez, argumenta que o realismo capitalista naturalizou a ideia de que não há alternativa ao sistema vigente, o que leva a um estado de impotência e desesperança. Para Fisher, essa falta de perspectiva é um dos principais motores da crise de saúde mental contemporânea, pois impede que os indivíduos enxerguem possibilidades de mudança estrutural.


Saúde Mental Como Questão Política

A psicopolítica, como define Han (2014), é um poder invisível, que age por meio da positividade e da autoexploração. Aplicativos de autoaperfeiçoamento, cultura do coaching, terapia como ferramenta de alta performance e até práticas de mindfulness voltadas para produtividade são exemplos de como o sofrimento psíquico é instrumentalizado pelo próprio sistema.

A medicalização do sofrimento, por exemplo, é um sintoma dessa despolitização. Em vez de questionarmos por que tantas pessoas estão adoecendo mentalmente, buscamos soluções individuais, como terapia, medicação ou práticas de bem-estar. Embora esses recursos sejam importantes, eles não resolvem as causas estruturais do problema. Como diz Thomas Szasz (1961), em O Mito da Doença Mental, muitas das condições classificadas como transtornos psiquiátricos podem ser compreendidas como respostas naturais a contextos de opressão e sofrimento.

Se quisermos de fato enfrentar a crise de saúde mental contemporânea, precisamos ir além da psicologia clínica e do discurso motivacional. Precisamos de políticas públicas eficazes, de uma redistribuição mais justa dos recursos e de uma sociedade que compreenda o sofrimento psíquico como um problema coletivo. Afinal, como dizia Aristóteles, somos seres políticos – e é na política que se encontram as possibilidades de transformação. 


Referências


FISHER, Mark. Realismo capitalista: não há alternativa? São Paulo: Autonomia Literária, 2009.


HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.


HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.


LAVAL, Christian; DARDOT, Pierre. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.


SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 1998.


SZASZ, Thomas. O mito da doença mental. Harper & Row, 1961.


WILKINSON, Richard; PICKETT, Kate. Desigualdade: como a desigualdade afeta a forma como vivemos. São Paulo: Editora Record, 2019. (Título original: The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better, 2010).

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