sábado, 3 de maio de 2025

O texto que fala sobre o texto

Escrever, para mim, é mais do que dizer: é dizer sobre dizer. Um gesto metalinguístico, quase ritual, no qual o próprio ato de escrever se torna objeto do discurso. Cada frase finalizada carrega não só o que se quer expressar, mas também a consciência e a inquietação de se estar construindo linguagem com linguagem.

Por vezes, a minha escrita soa, de certa forma, obscura, conotativa, entremeada de referências que nem sempre são obvias. Lança mão de um vocabulário muito próprio, por vezes metafórico, por vezes onírico, como quem escreve não apenas para ser lido, mas para ser decifrado. É uma escrita polifônica: nela ressoam vozes distintas, ecos de leituras passadas, ideias que me atravessam sem pedir licença. Há, nos meus textos, um fio intertextual que costura pensamentos e autores, sensações e silêncios.

E eu não o faço deliberadamente, não com a intenção de parecer pedante ou pretensiosa. Ao contrário: escrevo como penso, e penso por espirais, fragmentos e bordas. Esse é o meu estilo, a minha maneira de ser no mundo: por vezes confusa, sempre contemplativa, inevitavelmente questionadora. É como se cada texto fosse uma colcha de retalhos: imperfeita, afetiva, feita de sobras e brilhos, de sentidos e desvios.

Contudo, reconheço a desvantagem: nem sempre sou inteligível. Às vezes, o leitor se perde — ou melhor, se encontra em lugares que eu mesma não previ. A interpretação se faz difusa, escapa da intenção, tensiona o sentido. O escritor Jorge Luis Borges, provocador e autêntico, certa vez comentou: “Os críticos constroem uma obra que é paralela à minha, mas não a minha.” A frase sintetiza a distância inevitável - e talvez necessária - entre o autor e o que fazem de sua obra.

Nessa ruptura ecoa o conceito de  Barthes sobre a morte do autor. Quando publico um texto, morre em mim aquilo que eu gostaria de dizer. O que permanece é o que o outro entende — e esse entendimento é sempre novo, múltiplo, imprevisível. A obra se emancipa do escritor e se torna um campo aberto de significados.

Como todo Linguista sabe, nenhuma palavra é neutra. Toda enunciação é um diálogo: com o tempo, com os outros, com a cultura, eis o que Bakthin nos ensinou. 

Minha escrita carrega vozes que não são só minhas: ela é polifônica por natureza. Cada escolha lexical, cada construção sintática é uma resposta (ou uma provocação) a discursos que já existiam antes de mim e que continuarão após mim. Escrevo sempre com e através dos outros.

Talvez escrever como gosto de escrever, e não apenas como se espera que eu escreva, seja, em si, um pequeno ato de resistência.

Um bom texto informativo deve, sim, ser claro, preciso, coerente e coeso. Mas o texto literário, esse campo fértil da linguagem, pode e deve ser ambíguo, sensível, imaginativo, e, sobretudo, confiado à inteligência do leitor. Subestimar essa inteligência seria um empobrecimento estético e ético.

Num tempo em que a inteligência artificial molda padrões de linguagem previsíveis, ser singular e idiossincrática, e, por vezes, difícil significa ser radical. Ser autêntica é, agora, um ato revolucionário.

E assim sigo,"como o ouríves, que lima e refina o ouro", alinhavando palavras como quem costura memória, silêncio e profundidade. Porque, no fundo, escrevo não para explicar o mundo, mas para suportá-lo — e talvez, com sorte, entrelaçá-lo de sentidos.


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