sábado, 28 de junho de 2025

TDAH virou modismo: todo mundo tem TDAH

Será que todo mundo tem TDAH?

Imagem gerada por IA: releitura de Melancolia de Albrecht Dürer

Vamos falar sobre o que o TDAH realmente é.

Hoje em dia, vivemos um ritmo de vida acelerado, com excesso de estímulos, informações fragmentadas e notificações constantes. É comum as pessoas relatarem que se distraem com facilidade, esquecem onde colocaram o celular, pulam de um vídeo para outro, e não conseguem se concentrar em leituras ou palestras mais densas. Mas isso, em geral, é consequência do ambiente.

⚠️ Isso não significa que todo mundo tenha TDAH.

🧠 O que é TDAH, de verdade?

O TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) é um transtorno do neurodesenvolvimento, o que significa que afeta o funcionamento cerebral desde a infância, com impacto em diversas áreas da vida. Não se trata de desatenção voluntária, preguiça ou falta de esforço.

Entre os principais prejuízos estão:

🔹 Funções executivas

São as habilidades do cérebro que nos ajudam a planejar, organizar, iniciar e finalizar tarefas. No TDAH, essas funções são comprometidas, o que torna organizar a rotina, cumprir prazos e manter a disciplina um verdadeiro desafio.

🔹 Controle inibitório

Refere-se à capacidade de conter impulsos — seja falar demais, interromper alguém, ou até mudar de tarefa antes de terminar outra. Pessoas com TDAH têm dificuldade em inibir ações e pensamentos, o que gera um fluxo mental intenso e difícil de controlar.

🔹 Regulação da atenção

Ao contrário do que muitos pensam, o TDAH não é só “déficit” de atenção — é uma dificuldade em gerenciar a atenção. Às vezes, há distração extrema. Em outras, ocorre o hiperfoco: a pessoa mergulha profundamente em um tema de interesse, ignora o ambiente ao redor e perde a noção do tempo.

🎢 Uma vida marcada por extremos

O TDAH provoca desempenhos irregulares. Um mesmo indivíduo pode ter:

  • Excelente raciocínio lógico ou verbal
  • Criatividade e pensamento fora da caixa
  • Memória excelente para certos assuntos

...mas, ao mesmo tempo, pode sofrer intensamente com tarefas simples como:

  • Manter uma agenda
  • Pagar contas em dia
  • Organizar o ambiente ou o tempo
  • Seguir instruções e protocolos

Essa assíncronia — ou seja, ter altas habilidades em algumas áreas e defasagens em outras — é confundida com falta de esforço. Pessoas ao redor pensam:

“Se você consegue escrever tão bem ou tem tanto conhecimento, por que não consegue ser organizado?”

A cobrança externa se soma à autocobrança interna, gerando:

  • Ansiedade
  • Culpabilização
  • Baixa autoestima
  • Depressão

💡 O que é hiperfoco?

No TDAH, o hiperfoco é a capacidade de concentrar-se intensamente em algo que motiva muito. A pessoa pode passar horas estudando ou criando, sem perceber o tempo passar.
Ela pode:

  • Saber tudo sobre um tema específico
  • Perder a noção do corpo, do tempo e até de si mesma
  • Não ouvir ou ver quem está ao redor

É diferente de atenção normal — é quase como entrar em um estado de "flow" intenso, onde os limites do eu e do ambiente se dissolvem.

⚠️ Mascaramento e sofrimento invisível

Muitos indivíduos com TDAH desenvolvem estratégias compensatórias para lidar com suas dificuldades. Isso inclui:

  • Estar sempre ansioso para não esquecer
  • Ser rígido com horários e listas
  • Trabalhar até a exaustão
  • Esconder a desorganização do ambiente físico e mental

Por fora, podem parecer apenas “agitados” ou “distraídos”. Por dentro, enfrentam um cansaço extremo por não conseguirem controlar as próprias cognições.

🔁 Procrastinação crônica e underachievement

Procrastinação crônica

Não é preguiça — é dificuldade de iniciar tarefas mesmo sabendo da importância delas. O cérebro não consegue ativar o sistema de ação quando não há motivação emocional suficiente.

Underachievement

Pessoas com TDAH frequentemente rendem abaixo do seu potencial, por causa da desorganização, impulsividade e instabilidade. Isso leva a uma frustração constante, tanto interna quanto externa.

⚠️ Riscos associados

Por conta da impulsividade, da ansiedade e da dificuldade em regular emoções, há maior propensão a:

  • Vícios comportamentais e químicos
  • Descontrole alimentar
  • Uso excessivo de telas
  • Comportamentos de risco
  • Depressão e baixa autoestima

Esses comportamentos podem surgir como tentativas de regular emoções ou fugir da sensação de inadequação constante.

🧪 Como saber se é TDAH?

Para ter um diagnóstico confiável, é essencial procurar um neuropsicólogo ou psiquiatra especializado. O processo inclui:

✅ Entrevista clínica detalhada
✅ Aplicação de testes padronizados para avaliar:

  • Atenção concentrada e dividida
  • Memória de curto e longo prazo
  • Memória de trabalho
  • Raciocínio verbal e não verbal
  • Inteligência fluida e cristalizada
  • Funções executivas
  • Perfil emocional

✨ Conclusão

O TDAH não é uma desculpa, nem um modismo.
É um transtorno real, com base neurológica, que impacta o funcionamento diário de forma profunda.
Pessoas com TDAH precisam de compreensão, suporte e intervenções adequadas — não de julgamento, comparação ou frases como “todo mundo é assim”.

📚 Leituras para aprofundamento:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BARKLEY, Russell A. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: Manual para diagnóstico e tratamento. Porto Alegre: Artmed, 2008.

BROWN, Thomas E. A mente desatenta: novas compreensões sobre o TDAH infantil e adulto. São Paulo: Artmed, 2014.

MATTOS, Paulo. Entendendo o TDAH: seis passos para uma vida melhor. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

MATTOS, Paulo; COELHO, Luciana F.; COUTINHO, Gabriel. Funções executivas e TDAH: da avaliação à intervenção. Porto Alegre: Artmed, 2018.

MATÉ, Gabor. Mentes dispersas: as origens e a cura do transtorno de déficit de atenção. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mentes inquietas: TDAH – desatenção, hiperatividade e impulsividade. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

NABUCO DE ABREU, Cristiano. Dependência digital: o uso excessivo da tecnologia. São Paulo: Artmed, 2020.

WECHSLER, David. WAIS-IV: Escala de inteligência Wechsler para adultos: manual técnico. São Paulo: Pearson, 2013


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