Há pouco tempo, viralizou na internet o meme “me mimei”, inspirado em uma postagem da influenciadora Virgínia Fonseca, que exibiu uma compra de luxo de cerca de duzentos mil reais. Embora pareça apenas mais um episódio de ostentação, esse meme se tornou um símbolo de algo maior: a exaltação do eu e a busca incessante por validação nas redes sociais. Por trás desse fenômeno está um traço cultural mais profundo, que alguns teóricos poderiam identificar como uma patologia do social - narcisismo social.
Freud, em seu ensaio On Narcissism: An Introduction (1914), destacou como o investimento libidinal em si mesmo faz parte do desenvolvimento humano. O que antes era tratado como um processo psíquico individual ganhou contornos coletivos na modernidade. Hoje, não se trata apenas de amar a própria imagem, mas de espetacularizar esse amor publicamente por meio das redes. É justamente essa espetacularização que faz o “me mimei” ultrapassar a esfera pessoal, atingindo proporções de um fenômeno cultural.
O historiador e crítico social Christopher Lasch, em A Cultura do Narcisismo (1979), chamou a atenção para a forma como a sociedade norte-americana (e, por extensão, boa parte do Ocidente) passou a valorizar a autoimagem em detrimento do bem comum. Na era digital, a opinião de Lasch encontra um terreno fértil: a ostentação de bens, como bolsas de luxo, torna-se uma narrativa de “sucesso” que reforça o individualismo. Ao mesmo tempo, esse tipo de exposição gera comparações, inveja e uma busca incessante por aprovação, contribuindo para uma cultura do ego que enfraquece projetos coletivos de transformação.
Nesse sentido, Christian Laval e Pierre Dardot, em A Nova Razão do Mundo (2016), apontam como o neoliberalismo se apropria de nossas subjetividades, transformando cada indivíduo em um “empreendedor de si mesmo”. Nessa lógica, ostentar conquistas ou mimos pessoais – como no caso do meme – funciona como um sinal de que “você chegou lá”, mesmo que isso signifique apenas reproduzir um discurso de distinção social. Longe de incentivar a cooperação ou a reflexão política, essa postura alimenta a competição e a validação externa, afastando-nos cada vez mais de ações coletivas que questionem as desigualdades estruturais.
Por fim, Byung-Chul Han, em Psicopolítica (2014), descreve como a busca por likes, seguidores e uma boa imagem pública se tornou uma forma de autoexploração. Acreditamos estar no controle de nossa própria narrativa, mas, na realidade, somos conduzidos por algoritmos e por uma economia de atenção que lucra com cada curtida. Essa “positividade do poder”, como o autor chama, faz com que o indivíduo se volte cada vez mais para si mesmo, preocupado em perpetuar uma imagem ideal. Nesse processo, a possibilidade de consciência crítica e organização coletiva vai se diluindo, pois estamos ocupados demais em “mimar a nós mesmos”.
O meme “me mimei” evidencia como o narcisismo digital se expande para além de um simples capricho individual: torna-se parte de uma engrenagem social que estimula o consumo ostensivo, reforça hierarquias e legitima o status quo. Enquanto valorizarmos apenas aquilo que nos confere visibilidade e prestígio pessoal, continuaremos distantes de uma transformação profunda da sociedade. Afinal, o que seria necessário para romper com a ordem vigente se, no fundo, estamos todos ocupados em perseguir e exibir nossos próprios “mimos”?
Referências Bibliográficas
FREUD, S.
On Narcissism: An Introduction (1914). In: ______. The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud: Vol. XIV (1914-1916). Londres: Hogarth Press, 1957.
HAN, B.-C. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.
LASCH, C.
A cultura do narcisismo: a vida americana em uma era de expectativas em declínio. Rio de Janeiro: Imago, 1983. (Título original: The Culture of Narcissism, 1979)
LAVAL, C.; DARDOT, P.
A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
Nenhum comentário:
Postar um comentário