Sabe aquela criança "esquisita" que você (ou alguém que você conhece) zombava nos anos 80 e 90? Aquela criança mais quieta, que não se enturmava com facilidade, que ficava sozinha no recreio, evitava contato visual e parecia viver num mundo próprio? Aquela que era rejeitada nos trabalhos em grupo, chamada de "metida", "lerda", "fresca", "sem noção" ou "antipática"? Pois é. Muitas dessas crianças hoje são adultos e estão finalmente recebendo um diagnóstico tardio de autismo.
Uma matéria do The Guardian contou a história de um homem britânico que descobriu aos 50 anos que é autista. Esse é apenas um entre milhares de relatos que vêm surgindo no mundo inteiro. O reconhecimento tardio traz alívio, luto e raiva. Alívio por finalmente entender que nunca foi "difícil". Luto por todo o tempo perdido. Raiva por ter sido julgado por traços do seu funcionamento neurológico. Muita gente se espanta com o aumento de diagnósticos. E sim, é possível que haja alguns equivocados. Mas o silenciamento de traços autistas durante décadas, séculos e milênios, hoje encontra nome e significado. Segundo o CDC dos EUA, em 2022, 1 em cada 31 crianças estava no espectro. Entre adultos, os diagnósticos cresceram 450% em dez anos. É muita gente que antes passou invisível.
Os relatos são fortes. Muitos descrevem rejeição sistemática, dificuldade de se adaptar ao mundo social, sofrimento com injustiças e esgotamento por mascarar o que são. Não conseguem elogiar só por estratégia: se dizem algo bom, é porque sentem de verdade. Sentem desconforto com ambientes de fingimento, com hipocrisia, com incoerências. A busca é sempre por sentido, por verdade, por reciprocidade. Muitas vezes, são vistas como "difíceis", "frias", "exageradas" ou "sem filtro". Mas estão sendo apenas autêutenticas. E é comum preferirem se isolar, porque o desgaste social é imenso.
Hoje, ao se reconhecerem como autistas, essas pessoas não estão buscando um rótulo. Estão encontrando sentido para uma vida inteira de sofrimento calado. E aos poucos, resgatam sua história com menos culpa e mais compaixão. O mundo, infelizmente, não é acolhedor. A maioria das pessoas não sabe lidar com o que é diferente. E isso é doloroso. Mas saber quem você é pode ser o primeiro passo para se respeitar. E quem sabe, abrir um espaço mais gentil nesse mundo. Porque você não está errado. Você é diferente. E merece existir como é.
Fabiana Rodrigues Dias
CRP: 06/151932
frdias@alumni.usp.br
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