sábado, 28 de junho de 2025

TDAH virou modismo: todo mundo tem TDAH

Será que todo mundo tem TDAH?

Imagem gerada por IA: releitura de Melancolia de Albrecht Dürer

Vamos falar sobre o que o TDAH realmente é.

Hoje em dia, vivemos um ritmo de vida acelerado, com excesso de estímulos, informações fragmentadas e notificações constantes. É comum as pessoas relatarem que se distraem com facilidade, esquecem onde colocaram o celular, pulam de um vídeo para outro, e não conseguem se concentrar em leituras ou palestras mais densas. Mas isso, em geral, é consequência do ambiente.

⚠️ Isso não significa que todo mundo tenha TDAH.

🧠 O que é TDAH, de verdade?

O TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) é um transtorno do neurodesenvolvimento, o que significa que afeta o funcionamento cerebral desde a infância, com impacto em diversas áreas da vida. Não se trata de desatenção voluntária, preguiça ou falta de esforço.

Entre os principais prejuízos estão:

🔹 Funções executivas

São as habilidades do cérebro que nos ajudam a planejar, organizar, iniciar e finalizar tarefas. No TDAH, essas funções são comprometidas, o que torna organizar a rotina, cumprir prazos e manter a disciplina um verdadeiro desafio.

🔹 Controle inibitório

Refere-se à capacidade de conter impulsos — seja falar demais, interromper alguém, ou até mudar de tarefa antes de terminar outra. Pessoas com TDAH têm dificuldade em inibir ações e pensamentos, o que gera um fluxo mental intenso e difícil de controlar.

🔹 Regulação da atenção

Ao contrário do que muitos pensam, o TDAH não é só “déficit” de atenção — é uma dificuldade em gerenciar a atenção. Às vezes, há distração extrema. Em outras, ocorre o hiperfoco: a pessoa mergulha profundamente em um tema de interesse, ignora o ambiente ao redor e perde a noção do tempo.

🎢 Uma vida marcada por extremos

O TDAH provoca desempenhos irregulares. Um mesmo indivíduo pode ter:

  • Excelente raciocínio lógico ou verbal
  • Criatividade e pensamento fora da caixa
  • Memória excelente para certos assuntos

...mas, ao mesmo tempo, pode sofrer intensamente com tarefas simples como:

  • Manter uma agenda
  • Pagar contas em dia
  • Organizar o ambiente ou o tempo
  • Seguir instruções e protocolos

Essa assíncronia — ou seja, ter altas habilidades em algumas áreas e defasagens em outras — é confundida com falta de esforço. Pessoas ao redor pensam:

“Se você consegue escrever tão bem ou tem tanto conhecimento, por que não consegue ser organizado?”

A cobrança externa se soma à autocobrança interna, gerando:

  • Ansiedade
  • Culpabilização
  • Baixa autoestima
  • Depressão

💡 O que é hiperfoco?

No TDAH, o hiperfoco é a capacidade de concentrar-se intensamente em algo que motiva muito. A pessoa pode passar horas estudando ou criando, sem perceber o tempo passar.
Ela pode:

  • Saber tudo sobre um tema específico
  • Perder a noção do corpo, do tempo e até de si mesma
  • Não ouvir ou ver quem está ao redor

É diferente de atenção normal — é quase como entrar em um estado de "flow" intenso, onde os limites do eu e do ambiente se dissolvem.

⚠️ Mascaramento e sofrimento invisível

Muitos indivíduos com TDAH desenvolvem estratégias compensatórias para lidar com suas dificuldades. Isso inclui:

  • Estar sempre ansioso para não esquecer
  • Ser rígido com horários e listas
  • Trabalhar até a exaustão
  • Esconder a desorganização do ambiente físico e mental

Por fora, podem parecer apenas “agitados” ou “distraídos”. Por dentro, enfrentam um cansaço extremo por não conseguirem controlar as próprias cognições.

🔁 Procrastinação crônica e underachievement

Procrastinação crônica

Não é preguiça — é dificuldade de iniciar tarefas mesmo sabendo da importância delas. O cérebro não consegue ativar o sistema de ação quando não há motivação emocional suficiente.

Underachievement

Pessoas com TDAH frequentemente rendem abaixo do seu potencial, por causa da desorganização, impulsividade e instabilidade. Isso leva a uma frustração constante, tanto interna quanto externa.

⚠️ Riscos associados

Por conta da impulsividade, da ansiedade e da dificuldade em regular emoções, há maior propensão a:

  • Vícios comportamentais e químicos
  • Descontrole alimentar
  • Uso excessivo de telas
  • Comportamentos de risco
  • Depressão e baixa autoestima

Esses comportamentos podem surgir como tentativas de regular emoções ou fugir da sensação de inadequação constante.

🧪 Como saber se é TDAH?

Para ter um diagnóstico confiável, é essencial procurar um neuropsicólogo ou psiquiatra especializado. O processo inclui:

✅ Entrevista clínica detalhada
✅ Aplicação de testes padronizados para avaliar:

  • Atenção concentrada e dividida
  • Memória de curto e longo prazo
  • Memória de trabalho
  • Raciocínio verbal e não verbal
  • Inteligência fluida e cristalizada
  • Funções executivas
  • Perfil emocional

✨ Conclusão

O TDAH não é uma desculpa, nem um modismo.
É um transtorno real, com base neurológica, que impacta o funcionamento diário de forma profunda.
Pessoas com TDAH precisam de compreensão, suporte e intervenções adequadas — não de julgamento, comparação ou frases como “todo mundo é assim”.

📚 Leituras para aprofundamento:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BARKLEY, Russell A. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: Manual para diagnóstico e tratamento. Porto Alegre: Artmed, 2008.

BROWN, Thomas E. A mente desatenta: novas compreensões sobre o TDAH infantil e adulto. São Paulo: Artmed, 2014.

MATTOS, Paulo. Entendendo o TDAH: seis passos para uma vida melhor. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

MATTOS, Paulo; COELHO, Luciana F.; COUTINHO, Gabriel. Funções executivas e TDAH: da avaliação à intervenção. Porto Alegre: Artmed, 2018.

MATÉ, Gabor. Mentes dispersas: as origens e a cura do transtorno de déficit de atenção. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mentes inquietas: TDAH – desatenção, hiperatividade e impulsividade. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

NABUCO DE ABREU, Cristiano. Dependência digital: o uso excessivo da tecnologia. São Paulo: Artmed, 2020.

WECHSLER, David. WAIS-IV: Escala de inteligência Wechsler para adultos: manual técnico. São Paulo: Pearson, 2013


domingo, 22 de junho de 2025

Por que os diagnósticos de Neurodivergências estão aumentando tanto?


Sabe aquela criança "esquisita" que você (ou alguém que você conhece) zombava nos anos 80 e 90? Aquela criança mais quieta, que não se enturmava com facilidade, que ficava sozinha no recreio, evitava contato visual e parecia viver num mundo próprio? Aquela que era rejeitada nos trabalhos em grupo, chamada de "metida", "lerda", "fresca", "sem noção" ou "antipática"? Pois é. Muitas dessas crianças hoje são adultos e estão finalmente recebendo um diagnóstico tardio de autismo.

Uma matéria do The Guardian contou a história de um homem britânico que descobriu aos 50 anos que é autista. Esse é apenas um entre milhares de relatos que vêm surgindo no mundo inteiro. O reconhecimento tardio traz alívio, luto e raiva. Alívio por finalmente entender que nunca foi "difícil". Luto por todo o tempo perdido. Raiva por ter sido julgado por traços do seu funcionamento neurológico. Muita gente se espanta com o aumento de diagnósticos. E sim, é possível que haja alguns equivocados. Mas o silenciamento de traços autistas durante décadas, séculos e milênios, hoje encontra nome e significado. Segundo o CDC dos EUA, em 2022, 1 em cada 31 crianças estava no espectro. Entre adultos, os diagnósticos cresceram 450% em dez anos. É muita gente que antes passou invisível.

Os relatos são fortes. Muitos descrevem rejeição sistemática, dificuldade de se adaptar ao mundo social, sofrimento com injustiças e esgotamento por mascarar o que são. Não conseguem elogiar só por estratégia: se dizem algo bom, é porque sentem de verdade. Sentem desconforto com ambientes de fingimento, com hipocrisia, com incoerências. A busca é sempre por sentido, por verdade, por reciprocidade. Muitas vezes, são vistas como "difíceis", "frias", "exageradas" ou "sem filtro". Mas estão sendo apenas autêutenticas. E é comum preferirem se isolar, porque o desgaste social é imenso.

Hoje, ao se reconhecerem como autistas, essas pessoas não estão buscando um rótulo. Estão encontrando sentido para uma vida inteira de sofrimento calado. E aos poucos, resgatam sua história com menos culpa e mais compaixão. O mundo, infelizmente, não é acolhedor. A maioria das pessoas não sabe lidar com o que é diferente. E isso é doloroso. Mas saber quem você é pode ser o primeiro passo para se respeitar. E quem sabe, abrir um espaço mais gentil nesse mundo. Porque você não está errado. Você é diferente. E merece existir como é.

Fabiana Rodrigues Dias 
CRP: 06/151932
frdias@alumni.usp.br 

sábado, 3 de maio de 2025

O texto que fala sobre o texto

Escrever, para mim, é mais do que dizer: é dizer sobre dizer. Um gesto metalinguístico, quase ritual, no qual o próprio ato de escrever se torna objeto do discurso. Cada frase finalizada carrega não só o que se quer expressar, mas também a consciência e a inquietação de se estar construindo linguagem com linguagem.

Por vezes, a minha escrita soa, de certa forma, obscura, conotativa, entremeada de referências que nem sempre são obvias. Lança mão de um vocabulário muito próprio, por vezes metafórico, por vezes onírico, como quem escreve não apenas para ser lido, mas para ser decifrado. É uma escrita polifônica: nela ressoam vozes distintas, ecos de leituras passadas, ideias que me atravessam sem pedir licença. Há, nos meus textos, um fio intertextual que costura pensamentos e autores, sensações e silêncios.

E eu não o faço deliberadamente, não com a intenção de parecer pedante ou pretensiosa. Ao contrário: escrevo como penso, e penso por espirais, fragmentos e bordas. Esse é o meu estilo, a minha maneira de ser no mundo: por vezes confusa, sempre contemplativa, inevitavelmente questionadora. É como se cada texto fosse uma colcha de retalhos: imperfeita, afetiva, feita de sobras e brilhos, de sentidos e desvios.

Contudo, reconheço a desvantagem: nem sempre sou inteligível. Às vezes, o leitor se perde — ou melhor, se encontra em lugares que eu mesma não previ. A interpretação se faz difusa, escapa da intenção, tensiona o sentido. O escritor Jorge Luis Borges, provocador e autêntico, certa vez comentou: “Os críticos constroem uma obra que é paralela à minha, mas não a minha.” A frase sintetiza a distância inevitável - e talvez necessária - entre o autor e o que fazem de sua obra.

Nessa ruptura ecoa o conceito de  Barthes sobre a morte do autor. Quando publico um texto, morre em mim aquilo que eu gostaria de dizer. O que permanece é o que o outro entende — e esse entendimento é sempre novo, múltiplo, imprevisível. A obra se emancipa do escritor e se torna um campo aberto de significados.

Como todo Linguista sabe, nenhuma palavra é neutra. Toda enunciação é um diálogo: com o tempo, com os outros, com a cultura, eis o que Bakthin nos ensinou. 

Minha escrita carrega vozes que não são só minhas: ela é polifônica por natureza. Cada escolha lexical, cada construção sintática é uma resposta (ou uma provocação) a discursos que já existiam antes de mim e que continuarão após mim. Escrevo sempre com e através dos outros.

Talvez escrever como gosto de escrever, e não apenas como se espera que eu escreva, seja, em si, um pequeno ato de resistência.

Um bom texto informativo deve, sim, ser claro, preciso, coerente e coeso. Mas o texto literário, esse campo fértil da linguagem, pode e deve ser ambíguo, sensível, imaginativo, e, sobretudo, confiado à inteligência do leitor. Subestimar essa inteligência seria um empobrecimento estético e ético.

Num tempo em que a inteligência artificial molda padrões de linguagem previsíveis, ser singular e idiossincrática, e, por vezes, difícil significa ser radical. Ser autêntica é, agora, um ato revolucionário.

E assim sigo,"como o ouríves, que lima e refina o ouro", alinhavando palavras como quem costura memória, silêncio e profundidade. Porque, no fundo, escrevo não para explicar o mundo, mas para suportá-lo — e talvez, com sorte, entrelaçá-lo de sentidos.


sábado, 26 de abril de 2025

Um breve estudo Linguístico e Literário: o amor e a ironia em três enunciados.

Pensar a linguagem, não apenas enquanto prática social, mas também como uma espécie de "marcadora" da subjetividade, é abrir possibilidades de identificá-la como um constructo discursivo permeado por nuances que revelam não apenas o conteúdo explícito das palavras, mas também as intenções, emoções e críticas subjacentes daquele que comunica. 

Estive refletindo sobre o tema enquanto elaborava um texto sobre IA generativa e a visível falta de "alma" nos textos que ela é capaz de gerar. 

Eu escrevi a respeito de uma espécie de "vazio" nos textos "criativos" que pedi para serem elaborados pelo ChatGPT. 

Tudo me parece, no final das contas, superficial, pobre no uso de recursos linguísticos e de estilo e extremamente inautêntico. Parece faltar "personalidade", riqueza de conteúdo simbólico, de possibilidade de inferência - tão cara à literatura de boa qualidade. 

Os três enunciados que proponho analisar brevemente abordam o tema do amor sob diferentes perspectivas, utilizando recursos como a ironia, o litote e a metáfora para expressar complexidades emocionais e sociais. As frases em questão são:

  1. "Eu não vou me sujar fumando apenas um cigarro."
  2. "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada mais."
  3. "Já houve quem tivesse autoestima suficiente para não amar pessoas iletradas."

Ao explorar esses enunciados de forma mais detalhada, busquei compreender como os recursos estilísticos empregados contribuem para a construção de sentidos múltiplos e, por vezes, ambíguos. Tais sentidos desafiam interpretações simplistas e evidenciam a riqueza da linguagem verbal escrita na expressão de sentimentos subjetivos. 

É possível desvelar certas ideologias, experiências pessoais,  desejos e contradições próprias do sujeito discursivo. Pretendo explorar melhor essa faceta em um outro texto que publicarei em breve no blog. 

O primeiro enunciado, "Eu não vou me sujar fumando apenas um cigarro", extraído da canção "Chão de Giz" de Zé Ramalho, utiliza o litote como recurso estilístico. Ao negar uma ação aparentemente trivial, o eu lírico sugere uma recusa mais profunda, possivelmente relacionada à preservação de sua integridade ou à rejeição de envolvimentos superficiais. 

A metáfora do cigarro pode ser interpretada como símbolo de relações efêmeras ou prejudiciais, e a recusa em "se sujar" indica uma postura de resistência a tais experiências.

No segundo enunciado, "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada mais", de Machado de Assis em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", a ironia é o recurso central. 

Ao quantificar o amor de Marcela em tempo e dinheiro, o narrador desmistifica a idealização romântica, revelando o caráter mercantilista da relação. A expressão "nada mais" reforça a frieza e a objetividade com que o narrador encara o término do relacionamento, evidenciando uma crítica à superficialidade dos laços afetivos condicionados por interesses materiais.

O terceiro enunciado, "Já houve quem tivesse autoestima suficiente para não amar pessoas iletradas", apresenta uma construção que combina ironia e crítica social. 

A referência a "pessoas iletradas" pode ser interpretada não apenas no sentido literal, mas também como metáfora para denunciar atores sociais incapazes de compreender enunciados mais profundos e conceituais. 

A afirmação sugere uma mudança no padrão de relacionamentos do enunciador, indicando uma possível concessão a relações menos satisfatórias devido a uma diminuição da autoestima.

Em todos os três enunciados, observa-se o uso de recursos linguísticos que conferem múltiplas camadas de significado às expressões. 

A ironia, o litote e a metáfora são empregados de maneira a desafiar o leitor ou ouvinte a ultrapassar a interpretação literal e a considerar as implicações mais profundas dos discursos. 

Esses recursos estilísticos não apenas enriquecem o texto, mas também refletem as complexidades das experiências humanas relacionadas ao amor, à autoestima e às relações interpessoais.

A análise dos enunciados apresentados revela como a construção discursiva, por meio de recursos estilísticos como a ironia, o litote e a metáfora, pode expressar de forma sutil e complexa as nuances das experiências afetivas humanas. 

Esses recursos permitem que os enunciadores comuniquem críticas sociais, emoções ambíguas e reflexões pessoais de maneira indireta, convidando o receptor a engajar-se ativamente na construção de sentido. 

Assim, a riqueza da linguagem reside não apenas no que é dito, mas também no que é sugerido, ocultado ou ironizado, evidenciando a profundidade e a sofisticação do discurso humano.

A produção textual literária, original e autêntica, até o presente momento, não pode ser replicada pela IA, mesmo porque "replicar" ou "gerar" são quase que antônimos de "criar".

terça-feira, 15 de abril de 2025

Humano, demasiadamente humano


Quando estamos no segundo ou terceiro ano da faculdade de Psicologia, e começamos a ler o DSM ou o livro Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais, de Paulo Dalgalarrondo, é comum nos identificarmos com diversos transtornos descritos ali. Mas por que isso acontece? Porque os transtornos mentais são, na verdade, características humanas — porém intensificadas. O sofrimento, por exemplo, faz parte da experiência de ser humano. Todos nós, em maior ou menor grau, compartilhamos traços que também estão presentes em quadros clínicos.

Todo mundo é, em certa medida, um pouco ansioso. A maioria das pessoas é um pouco esquecida. A maioria das pessoas é um pouco... — e aqui podemos completar com tantas outras características que fazem parte do viver humano. Algumas pessoas se sentem tristes com mais constância do que outras. Isso é natural. Mas o que diferencia uma psicopatologia da normalidade?

A diferença está na intensidade e no impacto dessas características na vida da pessoa. Na psicopatologia, esses traços são muito marcados e causam um sofrimento significativo. Já na normalidade, embora também possam causar incômodo, trata-se de um sofrimento com o qual conseguimos lidar no dia a dia, mesmo com esforço.

Quando deixamos de conseguir administrar nossos próprios sofrimentos — quando eles se tornam pesados demais, intensos demais, constantes demais —, esse é um sinal de que chegou a hora de buscar ajuda terapêutica. A psicoterapia é uma ferramenta essencial para nos ajudar a lidar melhor com nossas emoções, pensamentos e comportamentos. Além disso, ela se torna ainda mais fundamental em períodos de sobrecarga emocional, como durante o estresse, o luto, problemas de relacionamento, dificuldades no trabalho ou outras questões da vida cotidiana.

Buscar ajuda não é sinal de fraqueza — é um ato de cuidado e coragem. É reconhecer que, embora o sofrimento seja parte da vida, ele não precisa ser enfrentado sozinho.

Nietzsche, em sua obra Humano, Demasiado Humano, nos convida a olhar para as emoções não como fraquezas a serem eliminadas, mas como parte constitutiva da condição humana. Para ele, sentimentos como angústia, tristeza, medo e dúvida não são desvios do caminho, mas elementos inevitáveis da nossa existência — expressões da nossa complexidade interna. Em vez de negá-los, deveríamos compreendê-los, investigá-los e extrair deles um tipo de sabedoria. Essa perspectiva filosófica nos ajuda a perceber que o sofrimento não é um erro no percurso, mas uma linguagem que merece ser ouvida e traduzida, especialmente com a ajuda do cuidado terapêutico.

sexta-feira, 28 de março de 2025

"Torna-te quem tu és" Emoções, autoconhecimento e potência de vida


Reconhecer as próprias emoções é um exercício de introspecção profunda, e talvez uma das mais importantes práticas para quem busca autoconhecimento e autenticidade existencial. Diferente da ideia comum de que somos seres puramente racionais, tanto a filosofia quanto a ciência contemporânea têm nos mostrado que nossas decisões, comportamentos e pensamentos são fortemente influenciados — e muitas vezes determinados — pelos afetos. Somos, antes de tudo, seres emocionais que pensam, não o contrário.

Nietzsche já antecipava isso ao afirmar que “os pensamentos são as sombras dos sentimentos”. Para ele, os afetos não são perturbações da razão, mas o solo onde toda forma de pensamento nasce. Emoções como raiva, tristeza, medo ou desejo não são falhas morais ou sinais de fraqueza: são expressões da "vontade de poder", essa força vital que nos move e nos constitui. Ignorá-las, suprimi-las ou domesticá-las em nome de uma razão idealizada é, para Nietzsche, uma forma de negar a vida.

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) também rompe com a ideia clássica de um sujeito racional e no controle total de sua mente. Ela mostra que nossas interpretações automáticas, pensamentos distorcidos e crenças centrais são moldados por experiências emocionais — muitas vezes inconscientes ou mal elaboradas. Em vez de combater os sentimentos, a TCC propõe identificá-los, compreendê-los e reestruturar os padrões cognitivos associados, favorecendo respostas mais adaptativas e conscientes.

Na mesma linha, a neurociência afetiva demonstra que a tomada de decisões e o comportamento social estão diretamente ligados a circuitos emocionais profundos, como o sistema límbico. Pesquisas mostram que pessoas com lesões nessas áreas, mesmo com raciocínio lógico intacto, são incapazes de fazer escolhas significativas, o que reforça a ideia de que emoção e razão não são opostas, mas complementares.

Ao viver e acolher as próprias emoções, reconhecendo que elas fazem parte da nossa natureza e ajudam a definir quem somos, começamos a enxergar com mais clareza o valor de sermos quem somos. Passamos a nos olhar com mais honestidade e até com mais carinho, incluindo aí aquelas partes que geralmente escondemos ou evitamos encarar. Não aceitar o que sentimos é, no fundo, recusar aquilo que nos torna únicos — nosso jeito de ser, nossas histórias, nossas marcas. É como se disséssemos "não" a nós mesmos. Ao contrário, quando acolhemos até as sombras, nos aproximamos de uma existência mais verdadeira. Como dizia Nietzsche: “Torna-te quem tu és.” Isso exige coragem, mas é nesse movimento que a vida ganha sentido.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Schadenfreude: O Mesquinho Prazer em Ver o Sofrimento do Outro



Schadenfreude: O Prazer na Desgraça Alheia

A experiência emocional humana é complexa, e um dos sentimentos mais paradoxais é o prazer que algumas pessoas sentem ao testemunhar o infortúnio dos outros. Esse fenômeno, conhecido como Schadenfreude, tem sido cada vez mais estudado pela neurociência, que busca compreender quais mecanismos estão envolvidos nessa resposta emocional.

Estudos mostram que, quando vemos alguém que invejamos passar por dificuldades, há uma sensação de prazer que pode ser comparada à satisfação que sentimos ao ganhar algo para nós mesmos. Isso acontece porque o cérebro reage ao fracasso dos outros de forma semelhante à maneira como responde a pequenas vitórias pessoais.

Por outro lado, quando sentimos empatia, ativamos um outro conjunto de processos que nos fazem sofrer com o sofrimento alheio. O problema é que, em situações de rivalidade ou quando há sentimentos de inferioridade envolvidos, essa empatia pode ser inibida. Em outras palavras, quando vemos alguém que consideramos uma ameaça sofrer, o prazer pode superar a compaixão.

A Schadenfreude, portanto, está fortemente ligada à inveja. Se alguém nos causa uma sensação de inferioridade, pode ser difícil lidar com isso de maneira saudável. Quando essa pessoa enfrenta dificuldades, há um alívio temporário, como se sua queda diminuísse nossa própria frustração. Esse é um dos motivos pelos quais figuras de grande destaque, seja no meio social, profissional ou até político, frequentemente se tornam alvos desse tipo de prazer malicioso.

Nietzsche e a Inveja

Para Nietzsche, a inveja é um dos motores da moralidade e da forma como as sociedades estruturam seus valores. Ele argumenta que muitos dos princípios morais que seguimos hoje foram moldados pelo ressentimento daqueles que não podem alcançar a grandeza. Em Genealogia da Moral, ele descreve a “moral do escravo”, um sistema de valores criado por aqueles que se sentem impotentes diante dos melhores.

Segundo essa visão, ao invés de buscar a excelência, os ressentidos preferem derrubar aqueles que se destacam. Eles justificam sua mediocridade ao demonizar a força, a inteligência e a autenticidade. O prazer no sofrimento dos que se destacam surge, então, como uma forma de vingança psicológica. O indivíduo que se sente inferior não pode superar o outro por mérito próprio, então busca sua queda.

Esse mesmo ressentimento pode ser visto no Schadenfreude. Quando uma figura invejada é afligida por algum tipo de dor, muitos sentem um prazer silencioso, pois isso confirma que ninguém é inatingível. A ilusão de que todos são iguais é momentaneamente restaurada. Nietzsche vê isso como um instinto destrutivo da sociedade, um impulso que impede o crescimento e mantém a mediocridade no poder.

Freud e o Narcisismo das Pequenas Diferenças

Freud oferece uma explicação complementar para esse fenômeno ao introduzir o conceito de narcisismo das pequenas diferenças. Esse termo se refere à necessidade que os grupos e indivíduos têm de enfatizar suas diferenças em relação aos outros, mesmo quando essas diferenças são mínimas. Isso acontece porque, ao estabelecer contrastes claros entre “nós” e “eles”, o ego se fortalece e se protege contra sentimentos de inferioridade.

Quando alguém que vemos como um competidor sofre um revés, esse prazer pode vir da sensação de que nossa posição foi elevada sem que precisássemos nos esforçar. Se a pessoa invejada cair, o invejoso pode sentir que sua própria posição relativa melhorou, ainda que nada tenha realmente mudado em sua vida.

A Projeção e o Medo da Inferioridade

Outro conceito central na psicanálise que ajuda a entender a Schadenfreude é a projeção. Freud explica que, quando um sentimento causa desconforto e ameaça nossa autoimagem, muitas vezes o negamos e o atribuímos a outra pessoa.

Isso pode ser visto na forma como pessoas invejosas frequentemente acusam os outros de arrogância, de se acharem superiores ou de merecerem sofrer por sua suposta prepotência. Na realidade, esse julgamento pode ser apenas um reflexo da própria sensação de inferioridade. Em vez de admitir que gostariam de estar no lugar da pessoa que invejam, projetam nesse outro a culpa e justificam seu prazer diante do sofrimento alheio.

O medo da inferioridade é um dos grandes motores desse fenômeno. Ninguém gosta de se sentir pequeno ou incompetente, e é muito mais fácil desmerecer o outro do que enfrentar as próprias limitações. Quando alguém que parecia superior enfrenta dificuldades, isso gera uma espécie de alívio interno — como se, por um breve momento, as diferenças entre nós e eles desaparecessem.

A Neurociência Social e as Consequências do Schadenfreude

Embora esse sentimento possa ser natural, ele se torna um problema quando passa a influenciar o comportamento social de forma ampla. Estudos na neurociência social mostram que a Schadenfreude pode reforçar preconceitos e desigualdades. Quando um grupo é rotulado como merecedor de sofrimento, isso reduz a empatia e pode levar à legitimação de injustiças.

Esse fenômeno está presente em diversas formas de discriminação, onde minorias e grupos marginalizados se tornam alvos de ridicularização e seu sofrimento é visto como merecido. Também aparece no mundo do trabalho, quando o fracasso de colegas é comemorado em vez de ser encarado como um alerta sobre as dificuldades do sistema. No campo político, pode alimentar um ciclo de polarização, no qual a derrota do adversário se torna mais importante do que o bem-estar coletivo.

A questão fundamental é que, ao normalizar o Schadenfreude, criamos uma cultura de hostilidade e competição destrutiva. Em vez de buscar o crescimento pessoal e coletivo, a sociedade passa a girar em torno da queda dos outros. Isso perpetua desigualdades e impede a construção de relações mais saudáveis.

Conclusão

A Schadenfreude, apesar de ser um sentimento comum, tem implicações profundas na forma como interagimos uns com os outros e organizamos nossa sociedade. A neurociência nos mostra que esse prazer no sofrimento alheio ativa áreas associadas à recompensa, enquanto suprime nossa capacidade de empatia. Nietzsche nos alerta sobre como esse impulso pode reforçar a mediocridade e a destruição dos que se destacam, enquanto Freud aponta a projeção e o medo da inferioridade como motores desse fenômeno.

Se essa emoção for vivida sem reflexão, ela pode levar à normalização de preconceitos e à perpetuação da desigualdade. No entanto, ao compreender suas raízes e impactos, podemos encontrar maneiras mais saudáveis de lidar com a inveja e a frustração, construindo um ambiente mais equilibrado e cooperativo. Afinal, o verdadeiro crescimento não está em ver os outros caírem, mas em encontrar formas de evoluir sem precisar diminuir ninguém.

Referências:

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

SINGER, Tania et al. Empathic neural responses are modulated by the perceived fairness of others. Nature, v. 26, p. 466-469, 2006.

RAMOS-OLIVEIRA, Diana; SANTOS DE OLIVEIRA, Felipe. Contribuições da Neurociência Social nos estudos da Schadenfreude, Cognição Social e Emoção Intergrupal: Revisão Integrativa. Universitas Psychologica, v. 17, n. 4, 2018. Pontificia Universidad Javeriana, Colombia. Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=64757109012. DOI: https://doi.org/10.11144/Javeriana.upsy17-4.cnse.


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