Você já sentiu que, dentro da sua própria família, havia uma hierarquia silenciosa, onde um filho era claramente favorecido enquanto o outro era relegado a um papel secundário? Se essa sensação faz parte da sua história, é provável que você tenha carregado as marcas dessa dinâmica até hoje – talvez sem nem perceber. O favoritismo materno não é apenas uma questão de tratamento desigual, mas sim uma dinâmica que pode moldar a autoestima, as relações interpessoais e até a forma como enxergamos a nós mesmos. Alguns filhos crescem sob o olhar atento da mãe, recebendo seu carinho, sua admiração, talvez até sua proteção. Outros, por outro lado, parecem existir à margem desse afeto, muitas vezes vistos como estranhos dentro da própria casa. Se você foi esse filho relegado, há algo muito importante para se compreender: talvez você nunca tenha sido o problema.
A história da filosofia nos oferece um exemplo clássico desse tipo de relação. Arthur Schopenhauer, um dos grandes pensadores do pessimismo filosófico, viveu uma relação conturbada com sua mãe, Johanna. Ela era uma mulher carismática, escritora de certo sucesso na Alemanha, e parecia nutrir uma profunda antipatia pelo filho. O desprezo que ela demonstrava por ele não era apenas velado – era verbalizado. Dizia que ele era difícil, ingrato, que afastava as pessoas. Schopenhauer, por sua vez, ressentia-se da forma como sua mãe buscava reconhecimento social e o tratava como um fardo, e a relação entre os dois chegou ao ponto da ruptura definitiva. Eles simplesmente pararam de se falar. Isso nos leva a uma questão dolorosa: até que ponto um filho precisa continuar tentando conquistar o amor de uma mãe que já escolheu quem ela quer amar?
Esse tipo de favoritismo muitas vezes não é racional ou declarado, mas nasce de uma identificação. A mãe pode favorecer o filho que se parece mais com ela, seja na aparência física ou na personalidade. O reconhecimento do "eu" no outro gera proximidade, enquanto aquele filho que difere da sua imagem idealizada pode ser inconscientemente rejeitado. Alfred Adler, em sua teoria sobre a ordem de nascimento, argumentava que a posição dos filhos na família poderia influenciar suas características e relações, mas essa não é uma regra fixa. O favoritismo pode surgir independentemente da posição na hierarquia familiar e está mais ligado à forma como a mãe se enxerga no filho do que à ordem em que ele nasceu. Freud já apontava que os pais projetam nos filhos suas próprias frustrações e desejos não realizados. Quando um filho se alinha ao que a mãe gostaria de ter sido ou ao que ela valoriza, ele pode se tornar o "eleito", enquanto os outros são deixados de lado.
Heinz Kohut aprofundou essa ideia ao falar sobre o narcisismo parental. Algumas mães projetam no filho favorito a imagem de um ideal – ele é o reflexo do que ela gostaria de ser ou do que ela considera digno de amor. Esse filho pode ser visto como especial, brilhante, talentoso, enquanto os outros são desvalorizados ou até invisibilizados. Esse é o caso da mãe narcisista, um fenômeno menos comum, mas devastador quando ocorre. Esse tipo de mãe sempre tem um "filho dourado" – aquele que pode fazer tudo, que é exaltado e protegido – e os outros filhos acabam relegados a papéis menores, muitas vezes sendo vítimas de abusos emocionais. Esses filhos desprezados podem ser tratados com frieza, hostilidade e até ridicularização, como se fossem uma falha no projeto da mãe. Crescem sentindo que precisam lutar constantemente por um reconhecimento que nunca vem.
As consequências disso podem ser profundas e duradouras. A Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby e aprofundada por Mary Ainsworth, nos mostra que os primeiros relacionamentos formam a base da forma como nos relacionamos ao longo da vida. Quando uma criança cresce sentindo que não é digna do amor da própria mãe, ela pode desenvolver um apego inseguro, carregando para a vida adulta sentimentos de rejeição, medo de abandono e dificuldades emocionais. Alguns filhos rejeitados crescem buscando desesperadamente aceitação em relacionamentos, tornando-se dependentes emocionais e inseguros. Outros, por outro lado, aprendem a se bastar sozinhos, desenvolvendo um apego evitativo, onde evitam se abrir emocionalmente porque aprenderam que depender dos outros é arriscado.
Se você percebeu que foi esse filho "descartado", pode ter passado a vida tentando provar seu valor. Pode ter desenvolvido uma necessidade incessante de validação, a busca por aceitação ou, ao contrário, ter aprendido a se fechar para evitar mais rejeição. Mas há um ponto essencial a ser compreendido: o motivo pelo qual você não foi o escolhido pode não ter sido uma falha sua, mas uma prova de que você sempre foi autêntico. Jean-Paul Sartre falava sobre autenticidade como a coragem de ser quem realmente somos, sem nos moldarmos às expectativas alheias. Muitas vezes, o filho que não foi o favorito é justamente aquele que não tentou se encaixar em um molde, que não se tornou uma cópia da mãe, que não funcionou como um espelho do seu ideal. E isso tem um preço. Pessoas autênticas muitas vezes pagam caro por não se conformarem, por não corresponderem ao que esperavam delas. Mas, no fim das contas, elas são livres.
Se essa dinâmica fez parte da sua história, talvez seja hora de parar de buscar no passado o reconhecimento que nunca veio e, em vez disso, reconhecer a si mesmo. Você não precisa ser igual para ser digno de amor. E, às vezes, ser diferente é o maior ato de coragem.
Referências Bibliográficas
ADLER, Alfred. O sentido da vida. São Paulo: Cultrix, 2006.
AINSWORTH, Mary D. S.; BLEHAR, M. C.; WATERS, E.; WALL, S. Patterns of attachment: A psychological study of the strange situation. Hillsdale, NJ: Erlbaum, 1978.
BOWLBY, John. Apego e perda: Apego. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KOHUT, Heinz. The analysis of the self: A systematic approach to the psychoanalytic treatment of narcissistic personality disorders. Chicago: University of Chicago Press, 1971.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: Ensaio de ontologia fenomenológica. Petrópolis: Vozes, 2011.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. São Paulo: UNESP, 2005.

As vezes a mãe não percebe, não tem conciencia disto
ResponderExcluirHaje de forma inconciente. No meu caso, foi a exclusão de pai. Mas nunca me afetou, porque eu sabia que ele era doente.