segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

É problema seu?

Vivemos em tempos em que a ansiedade, o cansaço e outros problemas relacionados à saúde mental parecem atingir muitas pessoas. Frequentemente, somos levados a acreditar que esses problemas são exclusivamente questões individuais – algo que precisamos resolver sozinhos, por meio de mais esforço, disciplina ou autocuidado. No entanto, estudiosos como Christian Laval e Pierre Dardot oferecem uma reflexão importante: e se esses problemas não fossem apenas individuais, mas também consequência de um modo de vida que todos compartilhamos?

Laval e Dardot descrevem que, na sociedade contemporânea, somos constantemente incentivados a nos tornar "empreendedores de nós mesmos". Isso significa que, além de lidarmos com nossos desafios pessoais, somos também responsabilizados por garantir nosso sucesso, nossa produtividade e até nossa felicidade, como se tudo dependesse unicamente de nós. Essa lógica faz com que a vida se transforme em uma competição constante, onde cada um precisa provar seu valor a todo momento.

Esse modo de viver traz consequências profundas. A necessidade de "estar sempre à altura", de ser produtivo, eficiente e bem-sucedido, cria uma pressão que, muitas vezes, se transforma em ansiedade, estresse e exaustão. Não é à toa que tantas pessoas se sentem constantemente sobrecarregadas ou insuficientes. Como Laval e Dardot apontam, essa sensação de inadequação não é apenas um reflexo interno, mas uma resposta ao ambiente em que vivemos, onde a cobrança para ser mais e fazer mais nunca cessa.

O problema é que, em meio a tudo isso, a responsabilidade pelo sofrimento psíquico é frequentemente deslocada para o indivíduo. Ou seja, em vez de reconhecermos que vivemos em um sistema que nos cobra excessivamente, somos levados a acreditar que a culpa é nossa por não sermos "bons o suficiente" ou por não conseguirmos lidar com todas as demandas. Essa lógica nos isola, nos faz sentir sozinhos em nossa luta e nos impede de enxergar que muitas das dificuldades que enfrentamos são compartilhadas por outras pessoas.

Por isso, é importante lembrar: nem sempre a ansiedade, o cansaço ou o sofrimento que sentimos são falhas pessoais. Muitas vezes, eles são consequências de um modo de vida que nos exige mais do que podemos dar, que nos coloca em uma corrida sem fim e que valoriza o desempenho acima de tudo. Reconhecer isso não significa ignorar a importância do cuidado individual, mas sim abrir espaço para uma reflexão mais ampla sobre o que realmente nos faz bem.

Talvez seja hora de repensarmos a maneira como vivemos e deixarmos de lado a ideia de que precisamos ser "perfeitos" ou "bem-sucedidos" o tempo todo. Afinal, o valor de uma vida não está em metas atingidas ou resultados medidos, mas no bem-estar que conseguimos cultivar, tanto para nós quanto para aqueles ao nosso redor.


LAVAL, Christian; DARDOT, Pierre. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016.

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